segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Sobre o ato de falar besteiras e outras bobagens.

Uma das características mais peculiares dos seres humanos é a capacidade de falar besteira. Falar besteira é um ato inerente à espécie e acomete todas as pessoas de todas as classes sociais. Uns mais, outros menos, mas em algum momento, pode ter certeza, o sujeito vai falar alguma besteira.
Esse prosaico ato nos faz mais humanos, mas, se feito em excesso, nos faz humanos mais idiotas do que os nossos pares. Portanto, é bom evitar falar muita bobagem por aí, já que tudo em excesso é ruim. Estou certo ou falando besteira?
Se a gente julgar o índice de popularidade de Lula e a quantidade de besteira que ele fala, estou, obviamente, errado. Antes que algum Lulista venha me esculhambar ou me chamar de blogueiro vendido ou algo do gênero, vou logo dizendo que nessa constatação não vai nenhuma crítica ao seu governo, mas uma observação sobre o divertido hábito de falar besteira do nosso presidente e como isso tornou-se uma característica extremamente peculiar na sua personalidade pública, quase que uma assinatura indelével em todos os seus pronunciamentos.
Nos últimos dias ele disse duas que me chamaram a atenção. Primeiro disse que se Jesus Cristo fosse presidente do Brasil faria aliança até com Judas. Essa metáfora teológica suscita imediatamente duas perguntas:
1) Quem é o Jesus?
2) Quem é o Judas?
Seria Jesus o próprio Lula? Seria Judas algum deputado mensaleiro ou algum partido fisiológico? Sabe Deus...
A segunda bobagem dos últimos dias foi a resposta do presidente aos que o acusam de transformar eventos e inaugurações oficiais em comícios para sua candidata Dilma. Lula disse que vai inaugurar as obras mesmo e que “o que engorda o porco é o olho do dono”. Mais uma vez, a metáfora, desta vez zoológica, do presidente faz surgir duas perguntas:
1) Quem é o porco?
2) Quem é o dono do porco?
Seria o porco o Brasil? Seria o dono do porco o próprio presidente? Se for isso, que infelicidade comparar nosso país a um suíno e que audácia se intitular dono do bicho. Será que é influência de velhos políticos patrimonialistas como os Sarneys da vida, que agem como se o Brasil fosse propriedade deles?
Prefiro achar que não e que Lula só está exercendo o seu sacrossanto direito de falar as besteiras de sempre e que fazem dele o presidente que melhor se comunica com a grande massa de brasileiros menos – digamos - “letrados”. O engraçado é que Dilma, que não tem um milionésimo do carisma de Lula, está se esforçando tanto para virar popular, simpática e parecida com o presidente que começou a perder o pudor de falar suas besteiras em público e já soltou uma das boas, que beira o nonsense. Criticada por aproveitar a agenda oficial para fazer campanha, o que é óbvio que está fazendo mesmo, ela saiu com a singela desculpa que os que criticam esse ato de fazer campanha eleitoral antes da hora o fazem porque ela é mulher. Que tal?
Companheira Dilma, você, enquanto candidata a presidente e a clone feminino de Lula, ainda vai ter que caprichar muito. Falar besteira com a categoria, a segurança e a competência de Lula não é pra qualquer um. Nosso presidente elevou o ato de falar bobagem a categoria de arte, é um artesão da metáfora sem pé e nem cabeça, um escultor de frases toscamente claras, concisas e diretas, um verdadeiro gênio da raça. Portanto, companheira Dilma, vá com calma, porque você está ao lado de um mestre e essa comparação pode acabar atrapalhando seus planos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Admirável mundo novo.

Sei não, mas algumas dessas modernidades que aparecem a cada instante andam me deixando meio com um pé atrás...
Primeiro veio esse negócio de baixar música na internet. No começo era via Napster, a galera trocava músicas e parecia com o velho esquema de gravar uma fita K-7 para um amigo de um disco que só você tinha. Mas o que começou meio inocente virou um monstro que destruiu a indústria fonográfica.
Até aí, tudo bem. Destruir grandes gravadoras multinacionais, verdadeiros impérios do mal no imaginário coletivo era até legal. Mas e aí? O que veio no lugar? Hoje milhares de bandas disponibilizam música na internet e isso é mais democrático. Beleza. Mas e o artista vive do quê? O direito autoral foi para o espaço. Aí dizem que o artista vive de show. Mas isso é artista famoso. O cara que ta começando vai investir uma grana, gravar sua música e jogar na internet contando que um dia vai ficar tão famoso e requisitado a ponto de viver de shows. Ok, mas quem paga as contas do cara até esse milagre acontecer? E os artistas famosos que não quiserem ou não puderem fazer shows? Os Beatles, por exemplo, fizeram seus melhores trabalhos depois que pararam de fazer shows e se concentraram apenas nos álbuns. Hoje isso seria impossível. Cazuza, quando estava doente, produziu alguns dos seus trabalhos mais importantes e não podia fazer apresentações para divulgar. Se fosse hoje, provavelmente não seria possível.
Outra coisa interessante dessa revolução tecnológica toda é tentar descobrir que artista legal surgiu nesse novo contexto. Não vale dizer Malu Magalhães, né? Tenham paciência!
Agora, a revolução tecnológica que está acabando a indústria fonográfica e a cinematográfica, apontou sua atenção para os livros. O Google diz que vai disponibilizar gratuitamente milhares de livros para download e o tal do Kindle diz que vai acabar com o livro impresso. Ok. Tudo muito bom, tudo muito legal. Mas o escritor vai viver de quê? De show?Alguns dizem que a propriedade intelectual tem que acabar, que o artista tem que criar para o mundo. Ok. E quem paga o aluguel e a luz do cara? É muito confortável dizer isso e ficar baixando o trabalho dos outros de graça na internet, mas é bom começar a pensar numa forma de remunerar quem produz conteúdo, porque se não o futuro vai ter muita tecnologia, muita maquininha, muito computador, celular, Ipod, Kindle e o diabo a quatro, mas não vai ter nada de novo para abastecer tudo isso. Imagine que futuro chato vai ser esse...

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Existencialismo de terceira num feriado de segunda.

Tantos livros para ler, tantas músicas para ouvir, tantos canais e tantos filmes para ver, tantos jornais, tantas revistas, tantos sites, tantos blogs, tantas tecnologias para descobrir e se adaptar, tanta coisa para aprender, tantos trabalhos a serem feitos, tantas besteiras a serem ditas...
Tantos caminhos possíveis, tantos caminhos impossíveis, tantas cidades para conhecer, tantas pessoas para falar, tantos amigos para fazer, tantos inimigos para evitar, tantas mulheres...
Tantos anos para trás, outros tantos e cada vez menos pela frente. Tanta coisa pra fazer e a chuva continua caindo lá fora e ainda mais aqui dentro...
Tanta coisa ainda para ser dita, mas, como diria Mersault, no monumental e fundamental Estrangeiro de Albert Camus que acabo de reler, "tanto faz".

terça-feira, 6 de outubro de 2009

O futuro a Deus pertence.

Desde antes de ser descoberto, o Brasil já era o país do futuro. Antes mesmo de Cabral aparecer por aqui, já circulavam lendas sobre o paraíso na Terra, uma enorme ilha no Atlântico, de clima tropical, com cidades de ouro e paisagens luxuriantes. Com a chegada dos portugueses por aqui, a lenda, de certa forma, se concretizou ao constatarem que tinham achado um país maravilhoso, onde se plantando tudo dava, sobretudo as nativas locais.
Os séculos passaram e continuamos sempre a ser o país do futuro. Uns mais maldosos até diziam: “O Brasil é o país do futuro e sempre será”. Mas parece que o futuro, essa coisa misteriosa que ninguém sabe bem o que é, chegou e o Brasil corre o risco de virar o país do presente. É petróleo no pré-sal, é Copa do Mundo, é Olimpíadas e agora até dando uma de potência imperialista a gente está, se metendo na crise de Honduras, que não é nosso vizinho, não tem ligação histórica nenhuma conosco e muito brasileiro nem sabia que existia. Os mais maldosos podem até dizer que o próprio presidente Lula só descobriu Honduras agora, mas prefiro nem repetir essa maledicência.
Mas voltemos aos eventos esportivos. Nem bem nos recuperamos das comemorações da escolha do Brasil como sede da Copa e já ganhamos uma Olimpíada. Que beleza! Para a Copa, que vai ser em 2014, não foi batido nem um prego até agora e tem cidade por aí, inclusive a poderosa São Paulo, que nem projeto tem direito. Aí veio o anúncio das Olimpíadas e a patacoada de sempre! O povo na rua comemorando, programas e mais programas sobre o assunto em todos os canais, ufanismo galvãobuenizante por toda parte, capas de revista, gozação com Obama e tudo mais.
Tudo lindo, beleza, sensacional, mas e aí? Quando é que se começa a trabalhar? E quem vai pagar essa conta? E quem vai ficar de olho nos políticos e empreiteiros que no Pan, que é um evento de terceira classe, já superfaturaram em 6 vezes os custos? E os problemas estruturais do Brasil, que na semana que ganhou uma Olimpíada recebeu a vergonhosa 75º colocação no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU? Que hora acaba o oba-oba eterno e a gente começa a transformar essa bagaça num país de verdade?
Esse negócio de ser um país rico com povo pobre não dá mais. Se a gente não mudar isso, corremos o risco de concretizar o que já andam dizendo por aí sobre os jogos olímpicos do Rio 2016, que vai ser ouro para quem está no alto do pódio e chumbo para todo mundo que esta embaixo ou que vamos ganhar medalha em assaltos ornamentais antes mesmo de começarem os jogos.

sábado, 26 de setembro de 2009

Confissões confusas.

Ando meio sem assunto para o blog nos últimos tempos. Minha vida está uma confusão enorme e a culpa nem é minha, quer dizer, não é só minha, pelo menos. Por isso, vou usar esse espaço que eu mesmo me dei para desabafar com vocês que me leem. Antes disso, queria dizer que acho meio bobo isso de falar da gente num blog. Não acho que falar da minha vida seja tão interessante a esse ponto ou que ela seja mais interessante do que a vida de quem quer que seja. Mas, em todo caso, vamos lá.
Nas últimas semanas estou num inferno kafkiano de burocracias, advogados, notas fiscais, bancos, cheques, impostos, darfs e milhares de coisas que nunca imaginei que iria enfrentar. Estou num labirinto repleto de becos sem saída. Um labirinto que entrei há alguns anos, por cinismo e pragmatismo absoluto, num pacto meio diabólico que fiz com uma profissão que nunca me disse muita coisa e nunca me deu maiores satisfações além da financeira ou de algum brilhareco insignificante e fugidio. Como o Fausto de Goethe, vendi minha alma ao diabo, quer dizer, a essa profissão que me garantiu algum dinheiro, conforto e tranquilidade para pagar minhas contas e poder correr atrás de algo que me desse mais prazer.
De certa forma, meu pacto demoníaco funcionou durante muitos anos, embora modestamente, já que não negociei um preço dos melhores com o príncipe das trevas e nem consegui conquistar quase nada do que sonhei. Mesmo assim, o demônio cobra sua conta e quer minha alma de vez.
Para isso, o tinhoso montou uma armadilha difícil de escapar e o pior é que percebi desde o início mas, arrogante e presunçoso, achei que poderia passar a perna no diabo, entrar na sua armadilha, usufruir dos seus benefícios e sair ileso, como das outras vezes. Só que o senhor das trevas não é tão bobo assim e agora, num movimento bem jogado, me encurralou no seu labirinto kafkiano e soltou o Minotauro atrás de mim. O diabo quer minha alma, que vendi barato demais, e não estou nem um pouco disposto a entregar.
Mas não há de ser nada. Se alguém acha que estou derrotado, saiba que, como diria Cazuza, “ainda estão rolando os dados” e se algum capeta desavisado acha que vai me pegar no contrapé, só posso recorrer aos grandes Roberto e Erasmo e avisar que “se você quer brigar e acha que com isso estou sofrendo/ se enganou, meu bem/ pode vir quente que estou fervendo”. E estou mesmo! Embora esteja no meio dessa confusão toda, terminei o meu segundo livro e se tudo der certo, ano que vem ela deve estar por aí. Por mais que o diabo queira me prender, minha cabeça ainda é livre e em breve, todo o resto vai ser também. E quem acha que não vou conseguir, que vá para o inferno no meu lugar!

sábado, 12 de setembro de 2009

Cidade sitiada.

Escrevo direto da cidade dos ônibus flamejantes. Da cidade sitiada por homens invisíveis, que cresceram em bairros que viramos as costas para não ver, que foram crianças que viramos o rosto para não enxergar e que estudaram (ou não) em escolas que nem cogitamos matricular nossas crianças bem nascidas.
Escrevo da cidade que esconde tudo isso atrás dos clichês de felicidade maníaca, de tristeza proibitiva e que faz sol o ano inteiro, mesmo quando tempestades monumentais fazem tudo submergir, casas desabarem e encostas derreterem como se feitas de açúcar.
Escrevo da terra da felicidade eterna, do oba-oba de plástico, das cantoras engraçadinhas e do cinismo generalizado onde, enquanto a seleção brasileira derrotava o Chile e Galvão Bueno dizia que se fazia festa todos os dias, ônibus eram incendiados nas ruas e módulos policiais eram metralhados. Escrevo da cidade onde ninguém acredita em mais nada, onde falta emprego, segurança, saúde, competência, inteligência e discernimento para ver que somos geridos por gente que não consegue gerir nem suas próprias vontades.
Escrevo depois de ler no maior jornal dessa cidade sitiada, um manual de sobrevivência para ataques de traficantes. É quase que um manual de etiqueta para o cidadão achacado, um guia de boas maneiras para o sujeito prestes a ser currado. Se você vive em Salvador ou pretende visitar a cidade, leia esses mandamentos publicados no jornal A TARDE, edição do dia 12 de setembro de 2009:
1 - Se você estiver em um ônibus alvo de atentado, desça do coletivo assim que os bandidos derem a ordem. Evite olhar para os criminosos, sobretudo encará-los.

2 - Os passageiros, uma vez fora do ônibus, assim como transeuntes e veículos próximos, devem se afastar o máximo que puderem do veículo, devido ao risco de explosão. Sem pânico ou correria.

3 - Em caso de tiroteio, nunca corra. Jogue-se no chão ou tente se proteger atrás dos veículos ou equipamentos urbanos mais próximos.

4 - Assim que você estiver em local seguro, chame a polícia.

Anotadas essas dicas, aproveite sua estadia na terra da felicidade, balneário carnavalizante do Brasil, onde é proibido ficar triste e falar de assuntos como esse, fato que caracteriza uma grave ofensa a baianidade reinante e ao espírito republicano do governo que assiste a tudo isso com a tranquilidade de quem veste um velho calção de banho e curte um dia para vadiar diante de um mar que não tem tamanho na praia de Itapuã.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Belchior não tem lugar no país dos bigodes.

Antigamente, uns diziam que o Brasil era uma república das bananas, outros diziam maldosamente que era uma república dos bananas. Atualmente, parece que somos mesmo é uma república dos bigodes, já que nas últimas semanas só se fala dos bigodudos José Sarney e seus atos secretos, Aloísio Merdadante e sua renúncia irrevogável e agora de Belchior e seu misterioso desaparecimento.
Autor de alguns clássicos da MPB, Belchior tem, na minha opinião, uma obra prima chamada “Como nossos pais”, uma das letras mais lindas, verdadeiras e tocantes que conheço. Outro dia, ouvindo a música, também tive vontade de sumir, de desistir, de largar esse país, essa cidade, essa profissão e tudo mais para trás. Nada adianta muita coisa, “eles venceram e o sinal está fechado para nós que somos jovens”, como diz o compositor cearense.
Votei em Lula, vibrei com sua eleição e achava que aquele homem, com aquela história de vida e com aquele partido que tanto defendia reformas, ética e transformações profundas na sociedade ia nos livrar de gente como Sarney. Mas o governo Lula, que nem reputo como ruim, foi muito diferente do que esperávamos. Não houve reforma alguma, os poderosos de sempre continuam mandando e até antigos inimigos históricos do PT como o próprio Sarney, Jader Barbalho, Romero Jucá, Renan Calheiros e Fernando Collor,hoje são novamente os donos da república. Eles, mais uma vez, venceram.
Talvez Belchior também tenha escutado de novo sua própria música e resolveu mandar tudo às favas. Raspou o bigode, foi conversar com um analista amigo dele que disse que desse jeito não dá pra ser feliz direito, perdeu o medo de avião e se mandou, afinal, como ele mesmo diz: “viver é melhor que sonhar”.
Eu, enquanto rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior, torço para que ele reapareça, mas, do jeito que as coisas vão, confesso que se fosse ele pensaria duas vezes antes de fazer isso.

domingo, 16 de agosto de 2009

Matéria no site O Livreiro.

O Livreiro é um site muito bom sobre literatura, com matérias, resenhas e espaço aberto para colaboração dos leitores. O músico e escritor Ricardo Cury, autor de "Para colorir", é colaborador do site e escreveu uma matéria sobre este escritor que vos escreve. Espero que gostem.

"Dyneylândia dos desgraçados"
por Ricardo Cury

Ouvi pela primeira vez o nome de Victor Mascarenhas quando ele dirigiu um clipe da brincando de deus, banda da qual fiz parte. Depois, por coincidência, fui trabalhar na agência de propaganda que ele era o diretor. Ficávamos na mesma sala, criando textos para vender jornal e celular. Porém, Victor também escrevia outras coisas e essas coisas viraram um livro chamado "Cafeína", obra que reúne 12 contos de Victor, todos tendo Salvador e seus habitantes anônimos como cenário. Essa obra foi publicada pelo Prêmio Braskem de Literatura. Agora Victor quer subir mais um degrau nessa caminhada e prepara o seu primeiro romance. Sobre isso conversei com ele:

Por que um romance? Tem algo a ver com o desafio? "Já fiz o de contos, agora vou pro estágio seguinte”?
Foram vários fatores. O primeiro deles é que as histórias em que estou trabalhando e que pretendo trabalhar impuseram a necessidade de uma narrativa maior e por isso estou tentando me aventurar pelo romance. Mas é claro que pensei no desafio também e pensei também no mercado, ouvindo conselhos de escritores mais experientes que dizem que as editoras têm mais interesse por romances. Mas na verdade a grande coisa que me move é contar as histórias e correr riscos. Literatura não pode ser zona de conforto.

Quem na literatura tem lhe agradado ultimamente?
Eu estou sempre lendo, misturo livros antigos, lançamentos, clássicos... Nos últimos meses li Philip Roth (Fantasma sai de cena), Rubem Fonseca (Primeiros contos), Adelice Souza (Para uma certa Nina), Fausto Fawcett (Santa Clara Poltergeist), Tom Wolfe (Emboscada no Forte Bragg) e agora estou intercalando Hemingway (O velho e o mar) com Kurt Voneggut (Café da manhã dos campeões)

E esse de Fausto Fawcett é o quê?
É um livro antigo dele, o único que não tinha lido. Achei num sebo em SP. É a historia de Verinha Blumenau, que tem um acidente radioativo e vira Santa Clara Poltergeist, que cura doenças trepando com os doentes.

Você tem uma relação com Fausto, né? Como o conheceu e como ele te influenciou (Fausto Fawcett escreveu o prefácio de "Cafeína")?
Eu conheci Fausto Fawcett como todo mundo, via Kátia Flavia. Aquela letra falada, delirante e o estilo dele me fascinaram desde o inicio. Aí veio o disco e livro Básico Instinto, que tem um conceito que é muito próximo da forma que vejo o mundo também. Ele diz mais ou menos o seguinte, que todo mundo tem um lado escuro que é libertado por básicos instintos... Meu livro é isso, todo meu trabalho na literatura fala disso. E isso não é novidade nenhuma, muitos falam sobre isso, como Nelson Rodrigues que é minha maior referência. Aí rolou a idéia de chamá-lo pra fazer meu prefácio. Ele leu o livro, gostou e fez um texto extremamente generoso... E ele é pouco conhecido como escritor, o que é imperdoável, já que seus livros são geniais e únicos na literatura brasileira.

Para conhecer o site O Livreiro, clique aqui

terça-feira, 28 de julho de 2009

Ser ou não ser.

Era domingo à noite, bem naquelas horas mortas entre o fim da tarde e o começo da noite, quando as cidades ficam meio desertas e poucas almas vagueiam pelas ruas. Mas neste domingo, tudo estava diferente e eu estava num improvável engarrafamento procurando vaga para estacionar. A causa do engarrafamento era também bastante improvável: uma peça de Shakespeare.
A explicação desse fenômeno era simples e tinha nome: Wagner Moura.
Todo mundo queria ver o Hamlet de Wagner Moura, inclusive eu, que já vi tantos Hamlets no teatro e no cinema e já li a peça algumas vezes. Queria rever Wagner no palco, coisa que não fazia há muitos anos.
Assisti várias peças dele ainda em Salvador. A primeira delas - A casa de Eros - acho que foi a primeira dele também. Fiquei impressionado como aquele cara, mais ou menos da minha idade (uns 20 e poucos anos, na época), era bom ator e forte em cena. Depois vi várias outras peças, até que um dia a gente se conheceu - acho que no set do primeiro filme dele, o curta Rádio Gogó, em que eu trabalhava na produção. A partir daí nos aproximamos, conversamos muito sobre filmes, futebol e música, fizemos projetos de outros filmes nunca filmados e acabamos fazendo um vídeo, meio improvisado e gravado em pouco mais de duas horas, chamado Pop Killer, que está logo abaixo desse post.
Pouco depois disso, Wagner entrou no elenco de uma peça de João Falcão (A máquina) e correu o Brasil. Antes de ir para o Rio, ele foi na minha casa cheio de fitas velhas para a gente selecionar algum material para fazer um book com seus melhores trabalhos. Era quase tudo meio tosco, coisa de ator em começo de carreira. A gente ria muito vendo aquelas coisas! Tinha um comercial de uma sapataria em que o futuro Hamlet aparecia debaixo de chuva, usando uma capa plástica e dizia:
- Estão chovendo ofertas na sapataria X – e em seguida caiam vários sapatos na sua cabeça. Um horror!
Noutro ele aparecia vestido e maquiado como bobo da corte - e nem era o pobre Yorick, bobo da corte da Dinamarca de Hamlet – saindo de uma geladeira, depois de um armário e correndo pelo meio de uma loja de móveis. Mas conseguimos selecionar bons trechos de outros trabalhos, editamos e o vídeo ficou até legal. Aí Wagner foi para o Rio correr atrás do sonho de fazer cinema e eu meio que deixei o cinema de lado, pra correr atrás do meu sustento na propaganda.
Tempos depois, trabalhando como redator na minha primeira campanha política e angustiado com aquele serviço insalubre, fui ao cinema ver nem lembro bem o quê. Entram os trailers e vejo Wagner ao lado de Antônio Fagundes fazendo Deus é brasileiro, de Cacá Diegues.
“O cara conseguiu!” – pensei, enquanto assistia o trailer, emocionado e feliz pelo meu amigo. A partir daí todo mundo sabe o que aconteceu com ele. Hoje, Wagner faz tanto sucesso que transformou Hamlet em blockbuster teatral, conseguindo colocar gente que nem sabe o que é Shakespeare para ficar três horas vendo uma peça falando das agruras do angustiado príncipe dinamarquês.
Foi meio surreal a noite. Gente usando suas roupas mais chiques, fazendo cara de conteúdo e tentando se manter atento a uma história que, se não fosse por Wagner, eles nem conheceriam. Mas senti falta do Capitão Nascimento para disciplinar a platéia e fazer aquele povo parar de tossir (como se tosse no teatro!), falar no celular ou ficar conversando e chupando bala o tempo todo. Mas o momento mais surreal da noite foi logo na minha chegada, quando o guardador de carros, curioso com aquela confusão toda, travou o seguinte diálogo comigo:
- Essa peça aí é o quê?
- Hamlet – eu disse.
- Com aquele cara que fez Capitão Nascimento?
- Isso.
- E qual a história?
Lá estava eu, diante do guardador de carro, tendo que explicar o que era Hamlet em poucas palavras. Pensei um pouco, usei todo poder de síntese possível e arrisquei:
- É a história de um príncipe que quer vingar a morte do seu pai e finge que tá maluco.
Ele assentiu com a cabeça e disse:
- Deus é mais!
Sobre a peça... Muita gente já escreveu sobre este Hamlet, sobre Shakespeare e sobre a atuação de Wagner Moura. Já escrevi demais por hoje e por isso peço emprestadas as palavras finais do atormentado príncipe da Dinamarca:
- O resto é silêncio.

Para assistir Pop Killer, com Wagner Moura, é só clicar

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Negócio da China.

Mais uma semana de crise no senado, com direito a gravações do filho de Sarney pedindo emprego para o genro, o velho senador reclamando porque sua neta não o procurou logo para resolver tudo e arranjar uma boquinha para seu namoradinho, que assim poderia sair com ela e pagar a conta com nosso dinheiro. Isso sem falar em senadores pedindo sua renúncia ou cassação e a mais alta casa do nosso legislativo ainda mais enlameada, esculhambada e desmoralizada.
Mais uma sexta-feira chega e com ela o indefectível artigo de Sarney na Folha de São Paulo. É mais uma excelente oportunidade para o presidente do senado se explicar para milhões de brasileiras e brasileiros, através do maior e mais influente jornal do país. Semana passada ele fugiu do assunto falando sobre o Google e nessa semana falou adivinhe sobre o quê?
Sobre a China!
Isso é que é querer mesmo mudar de assunto. Uma crise gigantesca no seu colo, o Brasil inteiro querendo explicações e Sarney vem falar da China! Se ainda fosse sobre os negócios da China que andam acontecendo em Brasília, mas nem isso...
Como sempre, os textos de Sarney são pródigos em citações, para que o leitor se impressione com a erudição de almanaque do bigodudo. Olha como começa:

“A CHINA -que quer dizer Terra do Meio- sempre despertou um fascínio na humanidade. A começar pelo seu modo de pensar condensado no taoísmo e no confucionismo, a teoria do yang e yin, isto é, o modo de vida em que o comportamento humano tem sempre duas faces, a do bem e do mal”

Que tal? O senador, escritor e imortal mostrou que entende tudo da arte de condensar, traduzindo a milenar cultura chinesa numa espécie de bilhete do biscoito da sorte. O artigo seguiu com mais obviedades, sobre os números do crescimento da economia chinesa – coisa que se Sarney não falasse certamente ninguém saberia – e nenhuma palavra sobre a crise do senado. Mas lá no final tem um provérbio sobre crise, que o senador deve ter pinçado do Google, e usou pra encerrar sua mixórdia das sextas-feiras:

“Em nível mundial, estes números estão criando um forte otimismo, e a China, que caminhava atrás, agora está sendo o carro-chefe do crescimento mundial e desperta a esperança de que ajudará a todos a sair da crise -sabendo sempre que todas as coisas, como sua filosofia manda, tem duas faces: a do Sol e a da Lua.”

Será que ele tem esperança que a China ajude ele a sair da crise também?
Bom, o que dizem é que os chineses punem com o fuzilamento os casos de corrupção e trambicagens em geral, e ainda mandam a conta do fuzilamento para a família. É claro que não concordo com isso e acho que nossas leis podem perfeitamente cuidar do caso, até porque a família do senador ia dar um jeito, via ato secreto, de pagar até o fuzilamento com dinheiro público.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Tenho boas e más notícias...

Quando dois artistas talentosos se encontram, às vezes rola uma química diferente, uma coisa mágica e transcendente que gera parcerias capazes de criar obras memoráveis. Foi Assim com Lennon & McCartney, Jagger & Richards, Roberto & Erasmo, Tom & Vinícius e tantos outros. Mas um dia algo acontece e essas parcerias desandam ou simplesmente acabam, seja por discordâncias artísticas ou pela morte de um dos parceiros. Ainda bem que a obra fica para sempre.
Mas o que dizer quando dois artistas tenebrosos se unem para criar algo aterrador, como é o caso da recém dissolvida parceria (graças a Deus!!) entre o inqualificável MC Serginho e a inexplicável Lacraia? Certamente é uma grande notícia para a humanidade, que por sinal já esqueceu completamente da existência dessas duas coisas. Mas, independente da inexpressividade da dupla, o fim dessa parceria grotesca é uma notícia a ser comemorada.
Infelizmente, o noticiário das celebridades não tinha apenas boas notícias hoje...
Li com um misto de nojo, assombro e terror que Kleber Bambam vai ser candidato a deputado. Que tal? Será que nosso congresso precisa de um reforço desse naipe? Será que aquela boneca Maria sei lá o quê vai ser assessora parlamentar e receber um polpudo salário? Qual será a plataforma política – se é que ele sabe o que é isso – de Bambam? Distribuição de açaí nas escolas? Aulas de swing baiano para os movimentos sociais? Criação de escolas profissionalizantes para subcelebridades e cursos preparatórios para o BBB? Ou será que diante do fracasso da sua – perdoem o termo – carreira artística, o ex-BBB resolveu tentar descolar um trocado às nossas custas?
No fim das contas, entre o MC Serginho, a Lacraia e o Bambam, prefiro mesmo é votar na Eguinha Pocotó.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

O senador, o Google e o Sonrisal.

Toda sexta-feira, o presidente do senado, o ilustríssimo e imortal José Sarney, escreve um artigo na Folha de São Paulo. Em meio a uma grave crise política, que tem seu epicentro debaixo dos bigodes do velho senador, procurei ler o seu texto, coisa que sempre evito fazer por motivos óbvios. Quem sabe hoje, no meio dessa crise, ele não usaria esse espaço para esclarecer alguma coisa aos brasileiros e brasileiras?
Peguei o jornal e um Sonrisal - para ler um texto de Sarney é sempre bom ter um Sonrisal à mão - e comecei a leitura. Será que ele falaria sobre os atos secretos? Sobre sua mansão não declarada à justiça? Sobre Agaciel Maia? Sobre seus parentes indiciados? Sobre o mordomo que ganha R$ 12 mil? Sobre seu neto que empresta dinheiro aos funcionários do senado?
O título do artigo é “Guerra virtual” e começa assim:

“EU PASSEI pelo lápis, pelo tinteiro, pela caneta-tinteiro, pela esferográfica, pela máquina de escrever manual e elétrica e desembarquei no computador... Agora, eis-me acompanhando a guerra de titãs que vejo nos jornais entre Windows e Google e sou envolvido nas disputas pelos chips menores, os aplicativos mais vastos e que eu nunca saberei todos porque são tantos que os anos não aguentam mais. Chrome ou Windows 7?”

E por aí vai. Esse é o assunto do artigo do senador José Sarney. Que tal? Onde ele mora? Em que país? Em que sistema solar? Em que galáxia? O mundo pegando fogo, o Brasil inteiro clamando por sua renúncia ou por uma explicação decente do inexplicável e Sarney diz que a “guerra de titãs” que ele acompanha pelos jornais é entre Windows e Google.
Depois quando dizem que o Congresso está distante do povo, que Brasília é uma ilha e quando um deputado diz que está “se lixando para a opinião pública”, muita gente fica surpresa. Pelo jeito o presidente Sarney está apelando para uma velha técnica, muito usada por maridos pegos em flagrante ou caloteiros confrontados com seus credores, que consiste em se fazer de maluco para escapar.
Li o artigo inteiro e um pequeno trecho me chamou a atenção:

“O Google Earth, por exemplo, é para mim um milagre, com sua capacidade de mostrar na tela a casa de todo mundo no mundo, inclusive a minha”.

Realmente esse Google Earth é um milagre mesmo, achou até a casa de Sarney. Será que é aquela que ele “esqueceu” de declarar à Justiça Eleitoral. Só nos resta torcer para que o Google lance mais alguma novidade capaz de rastrear contas e atos secretos também. Seria muito útil.
Agora, deixa eu colocar meu Sonrisal na água pra engolir esse artigo de Sarney...